AIDS, SOLIDÃO E OUTRAS DORES

Capa da versão em português de Portugal

Ernesto, 28 anos, micro-empresário, vive com o namorado há cinco anos. Os pais de Ernesto são separados há mais de 10 anos.

O companheiro refere que há alguns meses Ernesto “largou tudo”, não se preocupando mais com o trabalho. Eles são sócios.

Disse que se relaciona muito bem com o paciente, falou sobre o amor que compartilham e sobre a sobrecarga de trabalho com os cuidados pessoais com alimentação e higiene de Ernesto. “Eu não tenho nenhum tipo de ajuda da família, nem pra fazer uma sopa.

Disse que a mãe tentou levá-lo, mas que ela não tem paciência. “Outro dia ele molhou todo o chão, não deu tempo de chegar ao banheiro, ele está usando fraldas, precisa ver como ela ficou brava. Eu peguei ele e disse ‘deixa que eu cuido dele’ ”.

Após doze anos Ernesto resolveu procurar o pai, buscava a indicação de um mecânico que lhe prestasse serviços e fosse de seu confiança.

Essa visita, após o longo distanciamento, me fez pensar numa possível discordância entre o que o paciente dizia à família e o que poderia estar, de fato, no bojo desse desejo de reencontro: resgatar o relacionamento passado ou recolocar-se diante do pai, almejando parte do afeto que era dado a J. e ao qual ele, Ernesto, seu filho, tinha direito.

Nesse sistema familiar a doença e a proximidade da morte de um elemento apontam para a dificuldade de reequilíbrio do grupo.

A mãe afirma que não quer mais viver aqui. Voltará com a filha ao país de origem; J. permanecerá no Brasil e o companheiro de Ernesto irá ter com os seus que vivem no Sul. Também deseja retomar seu relacionamento familiar de origem e por eles ser cuidado.

Esses comportamentos demonstram que uma crise, como a que estão atravessando, reverbera fortemente, produz alguns efeitos cuidadores por parte dos indivíduos do grupo, porém não permite sua reorganização.

Isso se deve ao fato de ser uma família de fronteiras rígidas entre seus elementos e que necessita, para um funcionamento equilibrado entre eles, de certo distanciamento afetivo, forte indicativo de uma família desengajada...





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