No dia-a-dia percebemos emoções e sentimentos em bloco, contudo, para a reflexão que queremos fazer aqui é importante compreender esses processos separadamente.
Já dissemos em outro artigo que emoção é movimento e sentimento é reconhecimento. Toda vez que o organismo se desestabiliza são colocadas em movimento emoções que o levarão a se reequilibrar – em outras palavras, saímos em busca de alimento, sexo, água e fugimos das situações de risco. Nosso sistema autoimune também faz parte do processo emocional.
Essa autorregulação é automática. Está presente em todos os organismos vivos, da ameba ao ser humano, e não depende de um sistema nervoso complexo, tampouco da existência de cérebro.
Quando a percepção dessas emoções chega a zonas cerebrais, ela é codificada como uma atividade neuronal específica, esse reconhecimento é o que conhecemos como “sentir”.
O corpo, onde atuam as emoções, não é separado do cérebro – onde a mente processa os sentimentos. Mas a não-percepção dos processos corporais alimenta a falsa ideia dessa separação.
Quando você consegue perceber, identificar e dar sentido ao que está acontecendo dentro de si, é capaz de se comunicar e relacionar melhor com as outras pessoas. Mas nem todos conseguem reconhecer suas emoções, expressar seus sentimentos e menos ainda falar de si com os outros.
Fazendo contato
Se a sensação de bem-estar é ameaçada, por uma crise no relacionamento, por exemplo, os sinais de desconforto interno são visíveis. Quem prestar atenção na pessoa durante uma discussão verá o rubor em seu rosto; as pupilas dilatadas e o tremor na voz que indicam que algo doloroso se passa dentro dela.
Por mais que neguemos, as pessoas sabem quando algo vai mal. Mas para terem certeza disso é preciso que confirmemos verbalmente o que nos atormenta. Ocorrem conflitos entre os casais quando um julga que pode adivinhar o que o outro está sentindo e fica pior quando, baseada numa má interpretação da linguagem não-verbal, a pessoa teima que o outro está sentindo algo mesmo quando ele afirma não estar.
Entenda a alexitimia
Como já dissemos, a incapacidade de fazer contato com as próprias emoções dificulta à pessoa identificar e exprimir adequadamente suas sensações. Algumas experiências corporais são desconfortáveis e ela evita quebrar a rotina para se proteger da forte ansiedade desencadeada pela percepção de suas “estranhas” sensações corporais.
Seus sentimentos não são claros, ela não sabe lidar com situações conflitantes nem negociar, e se for chamada para “discutir a relação” muda de assunto ou se isola.
Não há notícia de que essas pessoas nasceram assim. O mais provável é que a falta de estímulo verbal, durante seu desenvolvimento, dificultou o surgimento das conexões neuronais necessárias para aprender sobre suas sensações corporais e a expressão delas.
Durante o crescimento, são elaboradas várias microconexões e o cérebro da criança aprende a estabelecer conexões entre as sensações corporais, os estados mentais e as palavras. As conexões que associam uma dada emoção a uma determinada palavra são reforçadas e conexões excedentes são eliminadas.
A disponibilidade da família é fundamental para o aprendizado sobre as emoções e os sentimentos, pois o cérebro infantil identificará como úteis as conexões neurais mais ativadas por frases repetidas pelos pais no dia-a-dia. Entretanto, se os pais vivem longos períodos de depressão, têm personalidades frágeis ou são muito instáveis psicologicamente, eles não conseguem auxiliar as crianças nesse processo.
Infelizmente, vida moderna diminuiu muito o tempo passado com as crianças e alguns crescem com dificuldade para “sentir-se” e para falar de sentimentos, o que pode gerar inabilidade nos relacionamentos. Sobretudo para a relação de casal.