Bem Estar E Clínica Reichiana

Em sua origem, as couraças humanas cumprem uma função defensiva.O problema é quando essas couraças se tornam cronicamente rígidas. O encouraçamento faz a pessoa se comportar, sentir e pensar sempre da mesma forma estereotipada em diferentes momentos e experiências de sua vida.

Mas, é possível resgatar a função das couraças, permitindo que se tornem elásticas - a ponto de protegerem a pessoa biopsiquicamente quando forem necessárias, e se recolherem quando não forem - permitindo liberdade de expressão e sensibilidade. Será durante o processo de flexibilização que ocorrerá, paulatinamente, a recuperação de recursos bioenergéticos, comunicacionais, perceptivos e relacionais.

A técnica reichiana
Concomitantemente à flexibilização das couraças, são trabalhados aspectos cristalizados e disfuncionais da autopercepção e da percepção de mundo do paciente, pois ele descobre o que os anos vividos na desconexão e na ausência de si, lhe causaram.

Esse aprendizado de estar próximo de si melhora intensamente a qualidade das relações interpessoais e o nível de compromisso social de nossos pacientes. Os procedimentos vegetoterapêuticos possibilitam  compreender a distância entre suas potencialidades internas e aquilo que conseguem realizar externamente.

Bloqueios e tensões
O processo analítico reichiano leva em conta o momento atual e a estrutura da pessoa e acontece de forma progressiva para que a recuperação perceptiva e corporal e a retomada do bom relacionamento consigo mesmo sejam graduais, pois uma pessoa pode ficar atordoada diante do vislumbre sobre quem ela é e suas reais potencialidades.

Os exercícios e procedimentos vegetoterapêuticos são direcionados à redescoberta e reparação de seu espaço interno. É no espaço interno que a pessoa pode compreender e lidar com seus limites, aprender a cuidar de si, diferenciar o que é pressão imposta por ela mesma - e por sua auto-exigência -, da pressão que vem de fora, das exigências do mundo.

Abrir mão do bom relacionamento consigo mesmo pode fazer com que se projete um ideal de segurança emocional em relacionamentos, aquisições materiais ou qualquer coisa externa, correndo-se o risco de passar a vida indo de uma casa para outra, de um emprego para outro, de um país para outro ou de um relacionamento amoroso para outro procurando um porto seguro, um lugar que lhe faça sentir-se  bem, protegida, aconchegada, pois perdeu a sensação de paz interior.

A paz interior é uma responsabilidade que não pode nem deve ser imposta a outros, ela se faz reconhecer através de uma tranqüilidade e segurança de pertencer, de ser aceito, sentir que merece viver com qualidade, pelo simples fato de estar vivo. A paz em si impulsiona a pessoa a rever padrões disfuncionais em seus relacionamentos e modo de viver.

Acompanhar a reorganização existencial - depois da desordem em que se converteu sua vida nos aspectos físico, profissional, afetivo e social -, é uma parte fundamental das atividades do terapeuta reichiano, cuja principal função é promover a maleabilidade das couraças do paciente, com vistas à experimentação do livre fluxo energético.

Bem consigo e bem com os outros
Fluindo, pulsando e estando mais próxima de si mesma a pessoa pode se concentrar no que acontece quando recebe uma crítica, um elogio ou uma carícia e como lida com isso. Se se reconhecer em suas particularidades a pessoa se descobre observando, compreendendo e diferenciando claramente o que são seus desejos e necessidades das necessidades e desejos dos outros.

Manter-se presente permite ao paciente descobrir como sente alegria, medo, raiva, ansiedade, tristeza, sensações de expansão ou frustração e como lidar com isso.

Desviar a atenção ou fingir que os sentimentos desagradáveis não fazem parte, ou não têm espaço em sua vida é totalmente contraproducente. Identificá-los não antecipará nem perpetuará o sofrimento. Mas, possibilita cuidar-se bem se ocorrerem crises.

Estar aqui e agora - não na expectativa ansiosa pelo que ocorrerá no futuro, nem preso ao passado, independente dele ter sido muito bom ou muito ruim -, permite à pessoa reconhecer suas necessidades e desejos em lugar de vagar de um lado para outro, ao sabor do que lhe é imposto de fora para dentro. Em outras palavras, reconectada ela pode, finalmente, fazer escolhas razoáveis e assumir as responsabilidades advindas delas.

Finalmente, compreende que nem sempre há sintonia entre os desejos e necessidades de duas pessoas e refletirá até que ponto se pode viver assim. Descobre, também, que vínculos e relações amorosas se mantêm saudáveis através de diálogo e negociação mediados por aceitação das diferenças e boa autoestima.

Reparos no mundo interno
Talvez o maior aprendizado aos que se submetem à análise reichiana seja descobrir que podem se reinventar e ser diferentes do que pensam que são, ou do que do que sempre ouviram dizer que nasceram para ser. Dessa forma, as pessoas descobrem o que podem fazer para alcançar a realização pessoal.

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A influência dos mitos


Aprendemos as primeiras noções de relacionamento com nossas famílias de origem. E, nossos pais esperam, inconscientemente, que repitamos em nossos casamentos os bons costumes e valores que nos transmitiram.
Esses costumes e valores constituem os mitos – ou regras de relacionamento afetivo – e ajudam a produzir os papéis que cada um vai desempenhar para um funcionamento familiar adequado, segundo os padrões daquele grupo.
O papel determina nossos comportamentos; pensamentos; visão de mundo; projetos futuros enfim, ele nos distingue e ajuda a compreender quem somos na constelação familiar. Além disso, eles regulam o funcionamento familiar, pois há sempre alguém para desempenhar um papel que complemente e sustente outro papel.
A escolha do papel não é racional. Na verdade é o funcionamento da estrutura familiar que cria as condições para que, também inconscientemente, as pessoas se adaptem ao papel que lhes é atribuído. Por outro lado, os outros esperarão que a pessoa se comporte conforme as atribuições daquele papel.
Disfarces do Eu
Alguns dos papéis mais comuns e o enredo que eles representam são: a "mãe da miss" ou o "pai do camisa 10 da seleção", que coloca nos filhos a expectativa de realizar os sonhos dos pais. Seu complemento são os filhos fazem tudo para obter sucesso e satisfazê-los. Muitos conseguem, mas permanece neles uma sensação de que sua vida não tem sentido.
Há a "princesinha" e o "príncipe herdeiro", que se julgam a parte mais importante da família e seu justaposto: os "pais abnegados" e os "irmãos e irmãs desamparados" que se desdobrarão para proporcionar-lhes tudo o que desejarem. Nenhum sacrifício será suficiente para que esse filho consiga satisfazer seu desejo.
Há o "bobo da corte", que nunca é levado a sério pela família, e seu oposto, o irmão "critico", este sim, merecedor de respeito e detentor de poder entre os irmãos.
Há o "papai sabe tudo" e a "mamãe, a poderosa!" que centralizam o poder decisório e julgam poder comandar e decidir os destinos de todos, incluindo filhos, irmãos, pais idosos, genros e noras. Na outra ponta estão seus "comandados" que dependem deles para tudo e não evoluem rumo à interdependência.
Há o "cobrador" que, talvez por ter tido dificuldades na infância, julga que todos lhe devem alguma coisa e leva o resto de sua existência oprimindo e cobrando algo da família e de seus "cônjuges vítimas".
Toda família tem uma "ovelha negra", normalmente a pessoa com maiores dificuldades de adaptação social, relacional e comunicacional, a fonte das preocupações e o seu oposto complementar, o "cavaleiro branco", aquele que, todos já sabiam, seria um sucesso na vida, o porto seguro de todos que precisam de qualquer ajuda.
Mitologia pessoal e de casal
Para o casamento, o lado ruim de apegar-se aos mitos familiares, e aos papéis que as pessoas desempenham para manter essa mitologia, é que se corre o risco de não conhecer o parceiro, de fato e a fundo. E, por isso, um exige do outro algo que, talvez, não se sinta preparado para dar.
Os mitos podem fazer mais que regular a vida a dois, alguns fomentam crises. Na verdade, muitas crises são desencadeadas por comportamentos e idéias estereotipadas que o casal reproduz sem se dar conta. Vamos usar o alfabeto para dar alguns exemplos disso[1].
Existe o casamento tipo A em que um está muito distante do outro, mas eles têm um interesse em comum, talvez um bebê recém-nascido fruto de gravidez não programada, que representará o traço horizontal do A. Conforme o tempo passa os dois se aproximam mais e mais até que finalmente se juntam e o relacionamento se estabiliza.
Um casamento tipo H pode começar da mesma maneira, mas os dois nunca se aproximam e o casamento conserva-se unido por um único laço que podem ser os filhos ou o patrimônio.
O casamento tipo I começa com duas pessoas que com o passar do tempo se fundem numa única unidade formando o casal simbiótico que já foi descrita noutro capítulo.
Num casamento tipo O as pessoas entram e saem de crises, andam em círculo, repetem os mesmos erros e nunca chegam a lugar nenhum, até a separação. Podem se converter num supercasal.
Um casal tipo S é mais maduro. Ele vagueia a procura da felicidade e, em termos afetivos, os dois estão insatisfeitos, pois embora se sintam perto de onde queriam estar, nunca estão no lugar exato. O desapontamento os torna bons candidatos à psicoterapia uma vez que reconhecem seus desejos em comum e suas dificuldades. O divórcio é sua última opção.
Um casamento tipo V tem início com os dois muito ligados, mas logo após a lua-de-mel eles começam a divergir e não conseguem aceitar as particularidades um do outro. É possível que a relação não sobreviva à primeira crise e se separem em pouco tempo. Também pode ser que se torne um casal sem ninguém dentro.
Um casal tipo X viveu um amor profundo, mas uma crise grave os distanciou. Eles esperam que, milagrosamente, as coisas voltem a ser como eram no passado, mas não se propõem a discutir a relação e ligam o piloto automático. O marasmo, e a conseqüente crise existencial de um deles, pode levá-los buscar ajuda psicoterápica ou à separação. Mas se ninguém se incomodar continuarão empurrando o casamento com a barriga.
Por último há o casamento tipo Y que começa com uma união forte que arrefece quando as dificuldades, tanto as da relação como as individuais, se multiplicam. Então cada um encontra seus próprios interesses e segue o próprio caminho.
Quando os papéis são desvelados, as pessoas se conscientizam de seus comportamentos e podem assumir posturas mais cooperativas e autônomas na relação. Assim o casal pode abrir mão das manobras de controle mútuo, fortalecer os vínculos afetivos e criar espaço para evolução dos dois.
Através da orientação psicológica é possível que os casais em crise entendam e modifiquem os padrões de pensamento e os comportamentos disfuncionais. Agende sua avaliação.
1 - Exemplos extraídos de Claude Steiner. Os papéis que vivemos na vida. A análise transacional de nossas interpretações cotidianas. Rio de Janeiro, Ed. Artenova, 1976, pg. 199.